A Evolução Do Desenho Infantil

Postado por inovar 12/08/2019 0 Comentários

 

A Evolução Do Desenho Infantil 

Eliane Zulian Delázari

 

 

   Os primeiros anos de vida são, provavelmente, os mais decisivos no desenvolvimento da criança.

 

   Durante esse período inicial, a criança começa a estabelecer padrões de aprendizagem, atitudes e um sentido de si mesma como ser, ou seja, tudo o que irá ter reflexos em sua vida inteira. (LOWENFELD; BRITTAIN, 1977)

 

   A arte pode contribuir imensamente para o seu desenvolvimento, pois é na interacção entre a criança e seu meio que se inicia a aprendizagem.

 

   Embora pensemos que a arte começa com o primeiro rabisco que a criança faz num pedaço de papel, na realidade, segundo Lowenfeld e Brittain (1977), principia muito mais cedo. A arte começa quando os sentidos estabelecem o primeiro contacto com o ambiente e a criança reage as experiências sensoriais como tocar, cheirar, ver, manipular, saborear, escutar... qualquer método de perceber o meio e reagir contra ele é a base essencial para a produção de formas artísticas.

 

   Embora a criança se exprima vocalmente muito cedo, seu primeiro registo permanente assume com frequência a forma de garatuja, isso acontece por volta dos dezoito meses de idade. (LOWENFELD; BRITTAIN, 1977)

 

   Esse primeiro rabisco denominado garatuja é um importante passo no desenvolvimento da criança, pois é o início da pressão que a conduzirá não só ao desenho e à pintura, mas também à palavra escrita.

 

   Segundo Lowenfeld e Brittain (1977), é lamentável que a própria palavra “garatuja” tenha conotações negativas para os adultos, principalmente como “perda de tempo” ou “ausência de conteúdo válido”.

 

   O modo como se recebem esses primeiros rabiscos e a atenção que lhes é dada, podem ser a causa de a criança pequena desenvolver atitudes que permanecerão nela quando iniciar sua escolaridade formal.

 

   Devemos ter o conhecimento que o desenho surge de forma espontânea e evolui junto ao desenvolvimento global da criança.

 

   Para poder planejar de forma adequada as atividades de autoexpressão da criança, é importante que o professor conheça sua evolução gráfica.

 

 

   O desenvolvimento mental da criança e as fases evolutivas do grafismo

 

   Ao estabelecer um paralelo entre as fases evolutivas do grafismo segundo Viktor Lowenfeld e Lambert Brittain e os dois primeiros estágios de desenvolvimento mental da criança segundo Jean Piaget, percebemos a importância no contínuo crescimento do ser humano.

 

 

   Desenvolvimento mental – Piaget - Estágio sensório-motor - (0 a 2 anos)

 

   A criança

 

  • Não tem habilidade adquirida.
  • Percebe o meio com simplicidade.
  • Imitação crescente.
  • Pesquisa do movimento.
  • Repetição, criação dos hábitos.
  • Curiosidade e exploração de materiais diversos.
  • Coordenação motora grossa.
  • Reflexo de sucção (leva tudo à boca).

 

 

Evolução do grafismo - Lowenfeld e Brittain - Rabiscação

 

A criança

 

  • Não percebe que é o lápis que risca o papel.
  • Está mais preocupada com os movimentos, sons e explorações de novos materiais.
  • O desenho é um simples adestramento motor, totalmente involuntário.
  • Os movimentos são desordenados e incontrolados, mas proporcionam prazer à criança.

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   Desenvolvimento mental – Piaget - Estágio pré-operacional - (2 a 4 anos)

 

   A criança

 

  • Pensamento intuitivo: pensa conforme percebe.
  • Intensa exploração sensorial motora.
  • Aumento rápido do vocabulário.
  • Compreendem melhor suas experiências dramatizando situações vividas.
  • Permanecem pouco tempo atentas e concentradas.
  • São desembaraçadas e espontâneas.

 

 

 

   Evolução do grafismo - Lowenfeld e Brittain - Garatuja

 

   As garatujas são classificadas em três categorias principais: Garatuja Desordenada, Garatuja Controlada, Garatuja Intencional.

 

   Garatuja Desordenada

 

   A criança

 

  • A criança rabisca em diferentes direcções (vertical e horizontal).
  • Está muito próxima da rabiscação.
  • Ora rabisca com traços fracos e concentrados.
  • Ora traços fortes e dispersos.
  • Aparecem pequenos círculos ainda sem intenção, significado e expressão.
  • Às vezes não saem de um mesmo lugar, até que furam o suporte.
  • Outras vezes riscam uma folha inteira, misturando tudo que já experimentaram.
  • Pode apresentar variações de cores em seus desenhos, mas apenas como experimentação, dando preferência às mais fortes, que “aparecem” mais.

 

 

 

 

 

   Garatuja Controlada

 

   A criança

 

  • Controla um pouco mais seus movimentos.
  • Transforma pequenos círculos em pessoas e animais, dando-lhes cabelos, olhos e membros (em geral braços).
  • O desenho deixa de ser simples expressão motora e começa a representar coisas de sua realidade, em geral, figuras humanas.
  • A “célula” pode ser o corpo todo, ou apenas o rosto.
  • Os membros se destacam não obedecendo à posição correcta, pois em geral saem das orelhas ou do pescoço.
  • Primeiro desenham os braços, depois as pernas, os dois em apenas uma dimensão, como se fossem palitos.
  • No rosto, a presença de olhos e boca mostram em geral caricaturas alegres. Depois vem os cabelos e o nariz.
  • O desenho das orelhas só aparece mais tarde, quando a criança assimila sua função e importância.
  • O mesmo tipo de célula pode representar uma pessoa ou um animal. A criança os diferencia dando nomes aos desenhos.

 

 

 

   Garatuja Intencional

 

   A criança

 

  • Faz em seus desenhos outros elementos além da figura humana, quase compondo uma cena, ainda rudimentar.
  • O desenho parece feito de rabiscos, mas tem um significado intrínseco, pois enquanto desenha, a criança fala e conta histórias, explicando seus rabiscos de diversas maneiras.
  • A flor e a casinha se apresentam com frequência como uma expressão do lar ou da escola.
  • A figura humana é mais completa com cabeça, tronco e membros com pés e mãos.
  • No final dessa fase começa a misturar aos desenhos uma escrita fictícia, uma imitação de nossa escrita.
     

 

 

 

   Desenvolvimento mental – Piaget - Estágio pré-operacional - (4 a 6 anos)

 

      A criança

 

  • Pensamento intuitivo ainda forte.
  • Fase dos porquês.
  • Ajuda por imitação ou para agradar.
  • Intensa exploração sensorial motora.
  • Acção voltada para resultados concretos.
  • Agilidade e maior controle muscular.
  • Desenvolvimento da coordenação motora fina.
  • Expansão do vocabulário.
  • Maior poder de concentração.
  • Intensa formação de conceitos.
  • Gosto pelas actividades em grupo.
  • Desenvolvimento da autocrítica.

 

 

   Evolução do grafismo - Lowenfeld e Brittain

 

   Este estágio divide-se em duas fases: Fase Pré-Esquemática e Fase Esquemática.

 

 

   Fase Pré-Esquemática

 

   A criança

 

  • Começa a representar coisas de sua realidade e a exprimir sua fantasia.
  • Desenha vários objectos ou o que imagina deles, sem proporção de tamanho e distância.
  • Desenha o sol, em geral personificado, flores maiores que árvores, uma casa aqui, “eu” ali, tudo disperso no papel.
  • Começa a utilizar o desenho como expressão do próprio pensamento.
  • Não desenha o que vê, mas o que tem maior valor emocional ou carga afectiva para ela.
  • O desenho da figura humana é bastante completo e variado em suas formas.
  • Não utiliza cores da realidade, mas as que mais gosta.
  • É comum as figuras humanas todas coloridas.
  • As omissões, desproporções ou exageros mostram a importância que esses elementos têm dentro da acção.

 

   Fase Esquemática

 

   A criança

 

  • Conquista do conceito forma.
  • Os desenhos revelam realismo lógico (organização espacial) e descritivo (rico em detalhes).
  • As figuras se relacionam uma com as outras.
  • Desenham a linha de terra (um traço horizontal ou a borda da própria folha) e o céu, dando maior distância entre os dois onde as coisas ocupam seus lugares certos.

 

 

 

 

  • O personagem aparece em lugar definido e os animais quase sempre de perfil.
  • Usam linhas tracejadas, cruzadas, convergentes e pontilhadas.
  • Predominam as curvas, mas aparecem ângulos definidos.
  • Alguns recursos gráficos são utilizados (notas musicais = cantos dos pássaros; gotas próximas a cabeça = choro, suor...).
  • Preocupação em terminar o trabalho e colocar o próprio nome, em geral letras grandes.
  • Relação co-realidade começa a aparecer.
  • Representação num só desenho de vários aspectos impossíveis de serem vistos simultaneamente, quando o interior de uma casa é mais importante, recorrem ao desenho chamado transparência mostrando o que existe por trás das paredes, como se fosse visão de raio X.
  • É o apogeu do desenho infantil.

 

 

 

 

    O papel do professor

 

A abordagem do professor deve ser cautelosa para melhor entender o desenho do aluno.

 

O professor não deve permitir que sua ansiedade em obter resultados que agradem aos adultos destrua a pureza e a beleza do desenho infantil e sua expressividade; sua abordagem deve ser cautelosa para melhor entender o desenho do aluno sem desmotivá-lo.

 

Nunca se deve perguntar já sugerindo a resposta: “Isso é um cachorro?” Pergunte simplesmente: “O que você desenhou?” Ou deixe que a criança se manifeste quando quiser. Dessa forma, o professor fará o aluno pensar em seu trabalho, sem interferir nele.

 

O mais importante é estimular a produção artística sem fazer comparações ou “grandes elogios”.

 

Um resultado muito valorizado transfere para a criança um peso muito grande. Ela o repetirá com frequência para obter o mesmo sucesso, deixando de lado novas possibilidades que a fariam progredir graficamente.

 

Todas as crianças passam pela fase evolutiva do grafismo e o professor deve respeitar as fases e as individualidades sem comparar os trabalhos de seus alunos.

 

 

 

 

 

   Referências Bibliográficas

 

LOWENFELD, Viktor; BRITTAIN, W. Lambert. Desenvolvimento da capacidade criadora. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

 

PIAGET, Jean. Disponível em: http://www.slideshare.net/afcechin/piage-completo. Acesso em: 10 set 2010.